O fato é que o cidadão por trás deste blog, acometido de patriótica preguiça mental, nega-se a acolher as mudanças implementadas por decreto, sem nenhuma razão saudável, na Língua Mãe.
Aqui, ainda, a trema encontrará ninho sobre os us, os hífens continuarão a ser o mistério de sempre, os circunflexos seguirão protegendo as vogais duplas e os ditongos paroxítonos continuarão a portar as agudas marcas de sua abertura.
Esperava uma oportunidade para emoldurar este clipe do Andre R. (para quem muitos torcem a elitista napa, mas eu acho mui confortavelmente familiar). Dizem que o truque está na edição; na lágrima que aquele senhor discretamente afasta, aos 5:17. Mas eu duvido.
A moça que canta chama-se Carmen Monarcha e incidentalmente é conterrânea sua, tupiniquim leitor - o que, se não lhe enche de patriótico orgulho, ao menos serve como exceção para as moças que só fazem sucesso quando ungidas em abundância.
A ariazinha é do Giacomo P. que, também incidentalmente, faria, hoje, exatos cento e cinqüenta anos.
“Vou fazer esta pedra quicar no rio três vezes, filho”, dizia o jovem empresário para o desinteressado petiz, segurando, entre o polegar e o indicador da mão direita, um pedaço de bosta de vaca seca, enquanto, com a cabeça de lado e olhos apertadinhos, mirava a água. De um lago.
Eu ia escrever como me irrita ver esse monte de gente sorrindo-chorando com caras amanteigadas pela eleição do Barack O.; como eu gosto do George W. (é sério, é sério) – quando soube de algo muito mais importante.
Ruy nos deixa. Seria trágico, não fosse a promessa de que Rogério o substituirá.
Ruy está para George W., assim como Rogério está para Obama.
A diferença, é que, aqui sai de cena o personagem, com a promessa (será de campanha?) de que o autor o substituirá.
Dias disto e daquilo são as coisas mais aborrecidas que a estupidez humana já inventou, sobretudo quando não implicam em feriado. Além dos dias abjetos por definição – como o dia do contador, ou o dia da secretária – há aqueles simplesmente ridículos, que não servem sequer para bajular alguém, alguma catchigoria. Dia da árvore, por exemplo. E sobretudo o dia do livro.
Lembro até hoje – e garanto que faz muito tempo – do meu irmão mais velho, já gordinho aos oito ou nove anos, espremido numa amarela fantasia de livro, num jogral na quadra do colégio de padres agostinianos em que éramos diariamente torturados. A sua aflição, pelo aperto das capas madeirite e pela vergonha insuperável que passava, era quase sólida, de tão visível. Ele nunca mais viraria a página.
Tudo para quê, meu D_us? Para fazer alguém ler um livro? Você teria vontade de ler um livro vendo um gordinho ensanduichado em madeirite, e gaguejando um trecho, sei lá, do Monteiro Lobato? Eu garanto que não tive – e devo ter ficado longe dos livros, que tanto incomodavam meu irmão, por um bom tempo (italianos somos assim. Mexa com a nossa famiglia e rá!, vendetta).
Mas sempre há os “apaixonados por livros”, os que lêem muito, porque “lendo se viaja sem sair do lugar” (menos quando é no avião, né, coió). São os que lêem por hobby. São os que têm hobby. São os que acham bonitinho fantasiar crianças, para que elas aprendam como é divertido ler.
Mas não vim aqui hoje para dizer isso (honestamente, nem sei por que disse). Vim para dizer que os pais, em geral, sem distinção da raça, cor ou sexo (de credo, com: especialmente os católicos) devem ler A Princesa e o Goblin , the “most real, the most realistic, in the exact sense of the phrase, the most lifelike of any story I have ever read”, como disse ninguém mais, ninguém menos, que o Chesterton. E não foi só ele: C. S. Lewis confessou: “I have never concealed the fact that I regarded him as my master; indeed I fancy I have never written a book in which I did not quote from him."
E se não te basta, ó exigente leitor, ele e uma de suas filhas (das dele, não das suas, sei lá se você tem filhas) foram fotografados pelo Lewis Carroll (aí em cima). O que não prova absolutamente nada, mas é bacana.
Convencido? Apague a luz do quarto, deixe uma fresta apenas para permitir que você enxergue o que está lendo (se você é fanho, ou porta petista sigmatismo, peça para alguém ler; não estrague tudo, sacripanta). Em dois ou três capítulos, você consegue, nos seus filhos, o efeito que nem três mil gordinhos encapados conseguiriam.
setembro 24, 2008Quando, enfim, os R$ 50,00 encontram bolso.
Pensará o sacana leitor, mas não a bacana leitora, que abandonei a história para não confessar a apropriação indébita. Ou, pior: que eu não sabia como terminar. Engana-se, engana-se.
Fato é que, mesmo tentado pelo deminho, segui ladeira acima, sob um sol infernal, que se multiplicava gravata abaixo e me fazia remoer a decisão, pensando em revogá-la ainda que fosse só para comprar um suco, um red bull.
Mas, não: estóico que sou, resisti à sede e ao calor, resolvido a fazer com os cinqüenta o que tinha primeiro decidido – achei-os por acaso; então o acaso, e não eu, deveria resolver com quem ficaria a grana. O primeiro pedinte, leva. E ponto. O único que faria – e a isso já estava resolvido – é que entregaria segurando a nota entre o polegar e os demais dedos, para que o beneficiário não a pudesse ver antes de a ter na mão. Isso me daria tempo para escapulir aos prováveis “Deus-o-guarde”, de que eu, evidentemente, não seria merecedor.
Naquela manhã dantesca, a calçada da Conselheiro, que abriga – além de uma barraca de pastel, três vendedoras de bolo-com-café e dois fazedores de suco de laranja – pedintes de vários matizes e tons, estava diabolicamente vazia.
Contra o meu melhor julgamento, amaldiçoei o subprefeito pela asséptica competência, orando por um mendigo que me tirasse a desconfortante nota do bolso. E, como em todas as piores histórias onde há diabos, minha prece foi ouvida – sabe-se lá se por Ele ou pelo baixíssimo – materializando-se, já a apenas meia-quadra da Ana Rosa, um tropeguíssimo mendigo.
Era o melhor que se podia esperar, quando se esperava um mendigo. Não saberia dizer se era branco ou negro, tal a camada de sujeira que o acinzentava. Sua cabeça estava envolva numa espécie de capacete de lã desfiada, de onde despontavam umas bolas de algodão negro. Suas roupas tinham a mesma cor de sua pele – cinza. Pareciam alguma espécie de ex-uniforme, talvez de penitenciária. Ele estava sentado no meio da calçada e mesmo assim, de tão bêbado, cambaleava. Cambaleava sentado.
Juntei os dedos, segurei a nota com o polegar e ofereci o óbolo alheio ao trêmulo cidadão que, agora percebia, não cambaleava – tentava era levantar-se, o que naturalmente não tinha nenhuma condição de fazer. Viu minha mão estendida, relaxou, desabando no meio-fio e fez uma circular negativa com o indicativo: “quero não, moço, muitobrigado”. E voltou a tentar a ficar de pé, manobra que provavelmente tentaria por mais algumas horas.
“Não quer, não quer, uai”, pensei mineiramente, mas sem malícia. Aceitei a negativa com fatalismo – não era para ele, acabou. Maktub, talvez.
Continuei em direção à Ana Rosa, e já alcançava as escadarias, quando ouvi a melíflua flauta transversal, que um estudante espinhudo costuma soprar descompassadamente à noite, ao pé das escadas do metrô. Se ele estava ali de manhã, contrariando a sua rotina e a minha, decerto era para receber a grana! Eu normalmente deposito umas moedinhas na caixa aveludada que ele deixa no chão, e ficaria deveras satisfeito em largar cinqüentinha ali.
E, só por isso, abortei a anencéfala idéia: eu não poderia fazer com a nota o que eu queria. A escolha estava entregue a Deus ou ao diabo. Não a mim.
Entristecido, mas resoluto, desci as escadas, sentindo aumentar o eco da flauta, que vinha do comecinho do corredor. Ele tocava alguma coisa que deveria ser um pedaço da "Flauta Mágica". Eu descia, segurando o corrimão que separa as escadas de quem desce, das escadas de quem sobe (embora, aparentemente, só eu aplique a elas, teimosamente, as regras de trânsito), quando senti uma mão segurar e soltar, de leve, meu tornozelo direito. Era uma homenzarrão gordo, sentado nas escadarias, de sorte que sua buzanfa se esparramava por ao menos três degraus. Seu nariz explodia veinhas roxas e sua careca brilhava de sebo sob o sol amarelo. Vinha dele um cheiro acre, de hipoglós e ônibus lotado. Tinha na perna um inchaço vermelho, laranja e purulento. Estendeu a mão e fez uma cara infantil, pedindo um moeda aí, doutor.
A luz, o sinal divino (satânico?) explodiu por detrás dos meus olhos, e mesmo desequilibrado pela repulsa que passei a sentir do meu próprio tornozelo direito, entreguei a ele (ao gordo, não ao meu tornozelo direito), esforçando-me para não relar na mão grotesca, enfim, a nota.
Disparei escada abaixo, mas antes de terminar a descida, recebi a mais formidável série de palavrões que já me dedicaram. E a nota, amassada numa bolinha, quicou no meu cocuruto e foi pousar, mansamente, no azul veludo da caixa da flauta onde, enfim, encontrou o seu destino.
setembro 05, 2008Onde sigo com a narrativa à moda, mas outra.
Obnubilado pelos dramas familiares noturnos – que incluíram, naquela ocasião, pela ordem: (a) a febre da maior, provavelmente oriunda da mesma disney-amidalite que me acometia; (b) o olho inchado do menor, provável tersol, (se a medicina ainda os admitisse, sem subdividi-los em categorias e subespécies, todas com nomes diferentes) e (c) um convite para a maison de la mer dos sogros, justo, claro, no fim-de-semana em que haveria a corrida da Nike, para a qual eu já estava inscrito e animado e – acabou no olvido o elegante dilema que, minutos antes de entrar em casa, ocupava todo o meu lobo frontal. De sorte que, depois de apaziguar as doenças e curar, com alguma rispidez, a ousadia da parentela colateral, ao largar a caixa craniana na fronha e rezar meu pai-nosso de cada dia, sequer pedi alguma luz para o esquecido problema.
Só me fui lembrar da história toda ao reaparelhar-me na manhã subseqüente, devolvendo aos bolsos do terno (outro terno, por Deus. Não se usa o mesmo terno duas vezes em seguida), um por vez, as chaves, a carteira, o celular, os remedinhos – até que a vi ali, solitária e desprotegida, sobre o mármore do balcão onde largo essas coisas quando chego.
Mirando-a, todo o dilema voltou, com a força de um mini-tsunami mental, inundando ruidosamente não só o lobo frontal, mas também o parietal e o occipital, a ponto de atingir o cerebelo, que mandou uma minúscula onda espinha abaixo, até chegar ao meu sacro-cocciano, produzindo sensação deveras desagradável.
Apoiado com a direita no marmóreo balcão, esfreguei a esquerda na testa em busca de alívio físico para a tragédia mental – sem nenhum sucesso, claro. Desconsolado, semi-despenteado e sem idéias, embolsei os cinqüenta, dispondo-me a cogitar sobre o assunto no longo percurso do elevador, que me levaria das fofas nuvens que envolvem a minha penthouse à dureza do térreo. Mas o destino continuava irmão das pequenas artimanhas e o vertical transportador acolheu diversos condôminos, que me fizeram discursar sobre a atual condição meteorológica da urbe, impedindo-me de dedicar todas as minhas faculdades à solução do intrincado quebra-cabeças moral, que já me punha desconfortável como um terno da Colombo.
De volta ao caminho do metrô, ocorreu-me passar novamente à frente do solar das freirinhas – quem sabe a noite e a ansiedade não haviam me feito negligenciar a caixa de correspondência em algum canto obscuro? Além disso, sempre há por ali um mendigo que os taxistas apelidaram Xuxa – porque de fato é louro, e não negão, como pensou você, mendaz leitor, mas não você, sagaz leitora – e lê livros velhos de capa indecifrável que carrega numa mala, e se alimenta do que as freiras lhe dão. Podia, por que não?, entregar a nota ao Xuxa, ora essa.
Mas, alas, nem caixa, nem Xuxa havia. E um diabrete malandro (há os maldosos, há os maliciosos, há os malandros; este era do último tipo) empoleirou-se no meu ombro direito e começou a bafejar: “o destino quer que você fique com a nota.... fique com a nota... fique com a nota...”. Mesmo com apenas um “s” na frase toda, ele conseguia sibilar. Sibilava o “r” e “v” e até o “t”. E alongava as vogais, como criança imitando coro de torcida em jogo de botão. Com um tremelique involuntário, que foi do pescoço ao cotovelo, fi-lo cair ao meio-fio, onde foi alcançado pela roda de uma bicicleta, à qual se agarrou por instinto e, mesmo girando e batendo os chifres no asfalto a cada volta completa, debochava do ciclista, com sua vozinha andrógina “...vááá de carrrroooo, ou é eleitorrrr da Sssoninhaaah?...”.
E, ah, desculpem. Era para terminar hoje, mas não deu. Amanhã, amanhã.
setembro 04, 2008Um caso narrado à moda, com suspense antes do final.
Não vou narrar este caso para me vangloriar de minha histórica honestidade, menos ainda de minha gratuita generosidade, até porque, como o malicioso leitor e a deliciosa leitora poderão concluir por seus próprios meios, não se trata nem de uma coisa, nem de outra. Narro este caso com o único – mas firme – propósito de narrar um caso à moda.
Outra noite, descendo a Conselheiro, onde escorrego todo santo dia vindo do metrô (que é o meio de transporte que os donos-de-carro juram que vai melhorar o trânsito, mas não pegam nunca, porque acham que é coisa de marmiteiro e estudante), achei uma nota de cinqüenta, dobradinha, perto de um poste.
Parei, olhei à minha volta (não cheguei a dar passinhos circulares, mas movimentei bem o pescoço, apesar de uma dolorida amidalite, que me dava a impressão de ter engolido o Mickey Mouse e engasgado com as orelhas), abaixei-me virilmente e apanhei a nota. Não olhei em volta (percebam, por favor) de maneira furtiva, para garantir minha impunidade. Não: queria, primeiro, ver se não havia nenhum engraçadinho desses programas de pegadinha por perto, que fosse, sei lá, puxar um fiozinho e me fazer trombar a testa no poste. Depois, queria sacar se o dono descuidado dos cinqüenta ainda estava em algum perímetro visível.
Como não havia sinal de sacanas, nem de potenciais proprietários da nota, no raio que de visão que minhas doridas amídalas permitiram, levantei-me, ergui a nota entre a ponta de dois dedos (o polegar e o indicador, mui naturalmente) contra a luz do poste, para ver se não estava escarrada, ou se não era, sei-lá, propaganda de cursinho para entrar na Aeronáutica. Não estava, não era: era só uma nota cinqüenta, como tantas por aí há.
Não é (como cuidei de alertá-los, não neguem) exatamente um teste para a minha honestidade, porque cinqüenta não é lá tudo isso. E se todo homem tem seu preço, vocês decerto já perceberam que, ainda que eu ande de metrô, cinqüenta não é o meu. Preço. São cinqüenta, e só. Mas o fato trazia um dilema, punha-me num cul-de-sac moral. O que eu deveria fazer com os cinqüenta?
Minha primeira reação foi egoísta, como são todas as nossas primeiras reações: os cinqüenta não deveriam mudar meu rumo. Eu seguia do metrô para a Pérola Orquídea (ah, que nome, não é? Já deve haver por aí um estudo sócio-lingüístico sobre nomes de padarias, e esse deve ocupar um capítulo especial), que tem uns palitinhos torcidinhos de calabresa e, em regra, ostenta uns meninos atrás de trocados, à entrada. Decidi, fácil: se um moleque da Pérola Orquídea me pedir um moeda, dou-lhe os cinqüenta – mas tem que ser na saída, para ele não poder me olhar muito, nem querer agradecer, porque os cinqüenta não são meus, e não ficaria bem receber um “Deus te abençoe” por conta da grana alheia.
Mas o destino, aquela noite, estava dado a peraltices: na entrada da Pérola Orquídea, apenas dois policiais, cuja panças testavam a resistência do kevlar, tagarelavam com um cara cujo braço era sacudido pela coleira presa a um golden retriever hiperativo.
“Na saída, quem sabe”.
Comprei os torcidinhos e uns pães integrais, paguei com meu próprio dinheiro e saquei os cinqüenta do bolso, para entregá-los a quem pedisse. Enquanto guardava o troco e sacava os cinqüenta, me veio a idéia de que, se ninguém pedisse, eu entregaria a graninha aos policiais – que são, caramba, a autoridade a quem recorrer.
Saí da Orquídea Pérola com um meio sorriso, pela inteligente solução, e quase fui lambido pelo cachorrão retardadinho. Tive tempo de ver o corsa da PM virar a esquina, com as luzes girando. Não lamentei muito, porque achei que os policiais iam me olhar com a mesma boca do golden retriever, atribuir a mim o QI dele, e dividir a grana entre eles dois.
Mas, plano por água abaixo, voltei ao caminho de casa, já lembrando que passaria pelos fundos de um colégio de freiras Agostinianas. “Elas vão saber melhor que eu o que fazer com os cinqüenta, claro. É só enfiar na caixa de correspondência e pronto”. Duas quadras com passos contentes e, como todos (menos eu) devem saber, as freiras, pelo menos aquelas freiras, não têm caixa de correspondência.
Cheguei em casa, enfim, com a nota pesando no bolso e na consciência, e sem saber como as freiras recebem as cartas de seus familiares. Será que é só e-mail? E só no dia seguinte, o acaso resolveu o caso (da nota, não das freiras). Depois eu termino: se eu agüentei esperar um dia, vocês também conseguem. E eu avisei que tinha suspense, antes do final.